Jailson Morais. Ousado e destemido.

Conheci Jailson em 1985. Eu tinha entrado um ano antes na Petrobras e ele, junto com uma turma oriunda do Colégio Agrícola de Jundiaí (Macaíba- RN), alguns eram naturais de Assu, outros não – tinham acabado de ingressar na Empresa, lotados no Alto do Rodrigues e morando em Assu, como todos nós. Ficava olhando muito admirado aquela figura com cara de menino, mais do que nós, porém com uma desenvoltura bem avançada para alguém daquela idade.

Já no ano seguinte, Jailson se tornou coordenador do DCE, do Campus Avançado Walter de Sá Leitão, da UERN, onde cursava Ciências Econômicas. Em 1988, com a eleição da chapa cutista, em sua maioria formada por militantes do PT, para direção do Sindipetro – RN, Jailson se tornou delegado sindical para o polo Assu, Alto do Rodrigues e Macau.

Em junho de 1990, por ocasião das demissões do governo Collor, sob sua liderança, aconteceu talvez um dos atos de maior ousadia da História de lutas de nossa categoria- se não o maior, devido a conjuntura em que aconteceu, no meio do mato, sem nenhuma estrutura logística – a famosa e pouco lembrada ocupação do Cubículo de Santa Rita. Era o local onde passava toda energia elétrica do campo de Alto do Rodrigues, em razão disso todo o campo incluindo áreas administrativas e operacionais ficaram sem funcionar durante mais de 24 horas. Numa época em que desafiar a direção da Petrobras era praticamente pedir para sair.

Ano passado, quando fez 30 anos do acontecido, falei com ele para fazermos um resgate, mas a pandemia não deixou.  Em 1991, coube a mim a tarefa de substituí-lo no mesmo cargo, confesso que não foi tarefa fácil, tamanha era sua popularidade na base petroleira.

Em 1992, foi candidato a vereador em Assu pelo PT. Em 1994, com fundação do PSTU, filiou-se ao mesmo e foi candidato a prefeito de Assu em 1996, tendo como vice o Companheiro Chico Rocha (PT). Inquieto, liderou nesse período uma luta para que os proprietários de terras produtores de petróleo no RN, recebessem royalties, o que acabou acontecendo anos depois. Retornou ao PT e continuou sua luta. Sempre com o olhar contra as injustiças; defendia todos e todas, sendo petroleiro(a) ou não, do corpo efetivo da Petrobras ou terceirizado, não importava. 

Defendia o desenvolvimento do Vale do Açu como poucos, ao passo que fez parte de todas as direções do Sindipetro – RN, de 1988 e todas as lutas da categoria até os dias atuais, com exceção de um mandato. Foi dirigente da FUP (Federação Única dos Petroleiros e atualmente era da diretoria de comunicação do Sindipetro – RN para o triênio 2021-2024.

Foi articulador político nos governos Lula e Dilma do projeto de alfabetização de jovens e adultos coordenado pela FUP e financiado pela Petrobras para todo o RN, denominado Mova Brasil, de forma voluntária. Não foram poucas as vezes que ficou com saldo negativo de pontos no trabalho, pois não tinha liberação para tal, exceto em um pequeno período. Ele era apaixonado pelo projeto e movia mundos e fundos para que ele tirasse, como de fato aconteceu, da escuridão do analfabetismo milhares de potiguares, fato reconhecido por todos e todas que tiveram oportunidade de participar do projeto. Sem esquecer de falar que também participou ativamente da implantação de uma horta orgânica comunitária no bairro Alto São Francisco(Assu), também financiada pela Petrobras, que até hoje funciona. Em outubro de 2020, tinha se aposentado. 

Jailson sempre “chegava chegando” e era impossível passar despercebido, pois dentro do ônibus da Empresa, no restaurante, sempre tinha debate com a presença dele. Nos nossos congressos, então, era quase impossível vê-lo sentado, pois sempre estava articulando a reunião do intervalo para formar a chapa que iria para a disputa das vagas do congresso nacional. Uma vez no congresso nacional, estava articulando a chapa da futura direção da FUP.

Por último, foi candidato, em 2018, a segundo suplente de senador na vaga que tinha como titular o dr. Alexandre Motta (PT). Em dezembro passado (2020), atuamos juntos para que houvesse unificação da categoria para a as eleições sindicais que ocorreram agora em janeiro de 2021. Foi um de nossos últimos contatos.

Chegamos a conversar pelo ZAP, quando ele já estava internado; o mesmo me falou que previsão de alta era de 6 a 8 dias. Falei que estávamos na torcida pela sua recuperação. Depois não pudemos mais falar. Tive a informação que ele ficou sabendo da diplomação do deputado Fernando Mineiro como deputado federal, o que certamente o deixou muito feliz, assim como a todos nós.

Sempre tivemos uma relação de companheirismo e amizade, mesmo nos momentos em que divergíamos. Fizemos juntos todas as campanhas do PT, as que perdemos e as que ganhamos. Hoje o perdemos na dimensão terrena. Vai-se o ser humano e fica seu legado, e o de Jailson não é apenas na esfera política, também no âmbito familiar, no qual ele conciliava a criação de Anna Clara, Pedro e Vitor com uma dedicação exemplar. 

Finalizo repetindo o que ele sempre dizia quando avaliava que algo estava errado: “Isso tá errado, peão! Vamos mexer nisso, não pode é ficar assim!” Vamos sim, Jailson! Vamos mexer nisso! Não pode é ficar assim! 

Descanse em paz, Companheiro.

LUIZ CARLOS DA SILVA

Petroleiro e Companheiro de muitas lutas

Natal RN, 17 de fevereiro de 2021.

Momentos com companheiros e lideranças nacionais do Partido dos Trabalhadores

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