Bolsonaro explode indicadores após intervenção na Petrobras

Os principais indicadores financeiros do Brasil explodem nesta segunda-feira (22), após o presidente Jair Messias Bolsonaro intervir no comando da Petrobras e sinalizar outras intervenções, contaminando as ações de todas as estatais na Bolsa de Valores brasileira.

Na sexta (19) Bolsonaro indicou Joaquim Silva e Luna como novo presidente da Petrobras. Se confirmado pelo conselho de administração da companhia, ele substituirá Roberto Castello Branco, alvo de sérias críticas do presidente que ele ganha muito dinheiro sem sair de casa. 

O Ibovespa, principal índice acionário do país, cai 5,16%, a 118.388 pontos, menor patamar desde 3 de dezembro.

“O impacto não é só na Petrobras, é um sinal de cautela para as outras estatais. O investidor vê a Bolsa com mais receio”, diz Arthur Spirandelli, especialista em estratégia e alocação da Acqua Investimentos.

O dólar sobe 2,60%, a R$ 5,5240. Na máxima do pregão, foi a R$ 5,53. O turismo está a R$ 5,68.

O risco-país medido pelo CDS de cinco anos sobe 14,28%, a 186 pontos. O CDS funciona como um termômetro informal da confiança dos investidores em relação a economias, especialmente as emergentes. 

Se o indicador sobe, é um sinal de que os investidores temem o futuro financeiro do país; se ele cai, o recado é o inverso: sinaliza aumento da confiança em relação à capacidade de o país saldar suas dívidas.

As ações preferenciais (mais negociadas) da Petrobras caem 19,50%, a R$ 22,00 cada, e as ordinárias (com direito a voto), recuam 19,55 %, a R$ 21,80.

Na bolsa de Nova York as ADRs (certificados de ações negociados nos Estados Unidos) da Petrobras recuam 20%, a US$ 8 cada.

A XP Investimentos rebaixou sua recomendação para as ações da Petrobras de neutro para venda neste domingo (21). O preço-alvo foi revisado de R$ 32, na avaliação anterior, para R$ 24, tanto para ações ordinárias quanto para as preferenciais.

Segundo a corretora, a substituição no comando da estatal representa uma derrota para o ministro Paulo Guedes (Economia), que defendia a permanência do atual executivo no cargo e era contra intervenções na companhia.

Para o mercado, há risco de saída de Guedes no governo, mas as chances de isso acontecer no curto prazo são pequenas, avaliam.

O Itaú suspendeu temporariamente a classificação e valor justo atribuidos à Petrobras, enquanto revisam a cobertura da companhia.

“Revisaremos nossas previsões assim que houver mais clareza. Entretanto, sugerimos reduzir a exposição ao nome [Petrobras], pois esperamos uma reação negativa do mercado”, diz relatório do banco publicado no domingo (21).

No sábado (20), Bolsonaro disse que ia “meter o dedo na energia elétrica” e que, “se a imprensa está preocupada com a troca de ontem, na semana que vem teremos mais”.

“A expectativa é de ingerência em outras estatais. A expectativa do mercado é que André Brandão [presidente do Banco do Brasil] seja demitido”, diz André Machado, sócio-fundador da escola de traders Projeto os 10%.

Assim como Castello Branco, Brandão foi alvo de críticas do presidente. Em janeiro deste ano, ele foi ameaçado de demissão por Bolsonaro após atritos com relação ao plano de reestruturação do banco anunciado pelo executivo, com previsão de fechamento de agências e abertura de programa de demissão voluntária.

As ações do Banco do Brasil caem 11,18%, a R$ 28,98 cada, por volta de 11h45.

A Eletrobrás também foi alvo de Bolsonaro, opera em forte queda. As ações preferenciais da estatal recuam 4,23%, a R$ 28,05 cada, e as ordinárias, 4,50%, a R$ 27,80.

Analistas do Credit Suisse reduziram a recomendação para as ações da elétrica e cortaram preços-alvo dos papéis, citando fala do presidente.

“Uma afirmação que pode ter muitas implicações”, escreveu a equipe do Credit Suisse em relatório no domingo (21), no qual apontou que eventual intervenção governamental no setor “pode aumentar a percepção de risco”, principalmente por levantar ecos de medidas do governo para reduzir tarifas em 2012 que impactaram empresas, principalmente estatais.

As ações preferenciais (sem direito a voto e mais negociadas) da Telebras, também estatal, cai 3,6%, a R$ 27. As ordinárias caem 4%, a R$ 72.

A Sabesp, do governo paulista, recua 3,77%, a R$ 37,77.

Em um sinal de aversão a risco do mercado e de alta da Selic no curto prazo, os juros futuros operam em alta. 

Juros futuros são taxas de juros esperadas pelo mercado nos próximos meses e anos. São a principal referência para o custo de empréstimos que são liberados atualmente, mas cuja quitação ocorrerá no futuro.

O juro para outubro de 2023 foi de 6% na sexta (19) para 6,16% na manhã desta segunda. A taxa para de julho de 2025 foi de 6,91% para 7,19%.

Segundo analistas, a intervenção de Bolsonaro fortalece a  perspectiva de alta da Selic em março. Atualmente a taxa está na mínima recorde de 2%.

De acordo com a pesquisa Focus divulgada pelo Banco Central nesta segunda, a expectativa para a taxa básica de juros subiu para 4% ao final de 2021, de 3,75% na semana anterior. Para 2022 o projeção para o juros foi mantida em 5%.

Outro ponto de tensão é a volta do auxílio emergencial. Investidores temem que o benefício seja aprovado sem contrapartidas fiscais, ameaçando o teto fiscal do governo em 2021.

*Aguardem a CVM – Comissão de Valores Mobiliários.  O mercado será o carro chefe da derrocada. 

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