Análise do artigo “Lula foi ainda mais Lula”

Hoje, li um artigo de “O Globo” publicado no dia 10 de março, sob o título “Lula foi ainda mais Lula”. Esse é o tipo do artigo “assopra e morde”, para usar uma terminologia alinhada com a do próprio autor, pois são colocados vários argumentos pró-Lula, para depois, em poucas palavras, praticamente desdizê-los. Vamos a uma rápida análise.

Logo no início, o texto afirma que o brilho do discurso de Lula deve-se ao fato de haver torpeza e ignorância do lado oposto, referindo-se a Bolsonaro. Segue a afirmação de que “qualquer um que lhe fizesse frente se destacaria com louvor”, o que significa desmerecer ou subestimar a grandiosidade da fala de Lula. É que os irmãos Marinho – sim, o articulista escreve o que os donos do jornal querem – não percebem que existe, país afora, muita gente de peso falando coisas pertinentes sobre o lastimável momento que o país está vivendo, pronunciamentos que deveriam ser divulgados pelos jornais Globo. Existem falas de cientistas, feito as de Miguel Nicolelis, por exemplo, sempre alertando sobre a necessidade de outra postura do governo federal em relação à Covid-19. Há pronunciamentos de governadores de Estados nordestinos, como os de Flávio Dino, do Maranhão, que também cobram atitudes concretas do governo federal. E, claro, outras análises da conjuntura atual feitas por comentaristas políticos.  Mas, na visão do articulista, o discurso do Lula aparece apenas por contraste devido à “… torpeza e pela ignorância do seu oposto”.

Na verdade, não existe parâmetro de comparação, pois as falas do Bolsonaro são memes, falas absurdas, engendradas para causar efeito, gerar espaço na mídia e satisfazer seus seguidores. As colocações de Lula são importantes, em primeiro lugar porque trazem o que uma grande parcela do país estava ansiosa para ouvir. A fala de alguém que foi covardemente preso e silenciado durante quase dois anos. São análises do cenário nacional que chegam no momento certo, quando o país já começa a dar sinais de que o seu próprio sistema político está doente e precisando, com urgência, de uma UTI que o oxigene com bom senso. A fala de Lula vem a denunciar esse governo que está orquestrado e em sintonia com interesses espúrios, e que vem fazendo a escolha contra a vida e a favor da economia, do mercado. Ou seja, a fala de Lula, de per si, ao focar na crítica a Bolsonaro e ao defender a vida e o diálogo com os diversos segmentos do país – do povo à classe política, do empresariado ao próprio mercado – tem uma grandeza que precisa ser reconhecida.  Ele é uma voz altaneira, que soa com o respaldo que tem, pois já foi presidente dessa república, já conviveu com os maiores estadistas do mundo nos foros internacionais, sempre elevando a dignidade do nosso Brasil. E alguns países até se sentiam ameaçados pela possibilidade de uma liderança brasileira que vinha sendo construída na América Latina. 

Dizer que o valor do discurso do Lula se deve a não existir um discurso do outro lado é querer esvaziá-lo de sua importância histórica e política. O que é um viés argumentativo, um ledo engano.  Além do mais, o texto traz uma série de alfinetadas a Lula e a Dilma. O artigo diz que Dilma quase quebrou o país… Entende-se esse viés do texto. Cabe dizer que, na verdade, existiu uma orquestração bem urdida para alijar do poder a primeira mulher brasileira a chegar à presidência. Usaram-se desculpas, armaram-se argumentos pequenos a que deram eco e grandiosidade, como as tais pedaladas (que foram muito maiores já na sequência, no governo Temer; e nem por isso ele recebeu impeachment). Inúmeros são os fatos, incluindo espionagem dos USA ao governo de esquerda no Brasil, grampos telefônicos e seus vazamentos feitos pela operação Lava Jato, a qual, sim, iniciava um processo de quebra do país. (Aqui abro um parêntesis para dizer que uma das principais razões para o impeachment de Dilma deveu-se ao fato de que seu governo estava determinado a assegurar 75% dos lucros com o pré-sal para a educação e para a saúde. Isso feria diretamente os interesses das empresas do petróleo norte-americano. Os USA tinham que fazer de tudo para que o Brasil não se tornasse autossuficiente nessa matriz energética, o que seria um desastre para os seus interesses. Fecho parêntesis.) Então, como se sabe, a operação Lava Jato foi tramada para gerar uma crise no país.

Quem quebrou o país?

Estudo recente divulgado pelo Dieese mostra que Operação Lava Jato deixou um saldo negativo de R$ 172 bilhões e 4,4 milhões de desempregados.

O restante do governo Temer foi refém dessa crise política e econômica, que elevou os níveis do desemprego, fruto das ações da Lava Jato contra empresas brasileiras, principalmente as empreiteiras, tudo isso em nome do combate à corrupção. Para exemplificar a gravidade da atuação da Lava Jato no país, estudo recente divulgado pelo Dieese mostra que essa operação deixou um saldo negativo de R$ 172 bilhões e 4,4 milhões de desempregados. Então, o processo de quebra do país inicia-se e se aprofunda com as ilegalidades praticadas pela operação Lava Jato, a partir dos desmandos da famigerada “república de Curitiba” e ações espúrias entre procuradores e juiz de plantão, que foram escancaradas pela divulgação das conversas na operação Spoofing, acesso que foi autorizado pelo STF à defesa do ex-presidente Lula, que recebeu as conversas periciadas pela PF e com a certificação de autênticas por não terem sofrido edição pelos hackers. Sob a batuta do juiz e do procurador já citados foram extraídas falas “encomendadas” a determinados escolhidos – os que concordassem em dizer o que se queria ouvir – sob a égide do instrumento chamado delação premiada.

O irônico de tudo isso é que foi Dilma quem aprovou a lei da delação, que foi muito bem utilizada contra o seu próprio governo, contra Lula e contra o PT, que já vinha sendo atacado e atingido em seus pontos chaves pelas ações desencadeadas contra o denominado “mensalão”. Moro e Dallagnol, com a famigerada Lava Jato   da qual proveio a Vaza Jato, através do The Intercept Brasil, hoje amplamente divulgada na mídia – como já foi dito, contribuíram para a quebra de empresas, causando uma grande onda de desempregos. Outra ação nefasta foi a de, ao arrepio da lei – ao usarem-na ao seu bel-prazer – determinarem a condução coercitiva de Lula até a Superintendência da PF de Curitiba onde, sem provas, ele foi julgado, incriminado e condenado à prisão, o que o tornou inelegível nas eleições de outubro daquele ano. Essa prisão e condenação aconteceram no momento em que Lula estava muito bem posicionado nas pesquisas eleitorais.

Aliás, esse era o principal objetivo da operação: a todo o custo, sem se importar com os meios utilizados, impedi-lo de concorrer à presidência. Essa manobra ilegal – o conluio indecente entre juiz e procurador – denunciada à exaustão pelos advogados de defesa de Lula não foi ouvida e nem considerada pela justiça – nem pelo STF à época – e desembocou na eleição de Bolsonaro com todos os desastres daí decorrentes: leiloar o pré-sal, desmontar aos poucos a educação, a pesquisa, a cultura, taxar o livro, desonerar armas e incentivar sua compra, menosprezar o vírus, apregoar a cloroquina, negar o uso da máscara e o distanciamento social, zombar da vida, negar a vacina e proibir sua compra por estados e municípios, ironizar e menosprezar homossexuais, atentar contra os povos indígenas, contra o meio ambiente,  dentre outros atentados ao país e, principalmente, aos trabalhadores com a retirada de direitos duramente conquistados em anos de luta sindical. E, de quebra, o juiz Moro ainda foi promovido a ministro da  Justiça e da Segurança Pública. Devido a equívocos na política econômica, o Brasil que era a 6a. economia mundial (alcançada na era Lula/Dilma), despenca para a 12a. posição. Então, o artigo de “O Globo” é bem parcial em relação ao ex-presidente Lula.  É como se o artigo quisesse, no fundo, dizer que Lula continua falando bem para enganar sobre o que sempre foi. Pois até levanta questões como o tríplex e o sítio, acusações das quais Lula já foi absolvido.

Provas? La garantia soy yo!

A verdade é que a Globo sempre deu eco aos argumentos da Lava Jato que, sem provar nada, manteve Lula preso, apenas “por convicção”. A Globo foi cúmplice da farsa que levou um miliciano – ou amigo deles – ao poder.  Esse mea culpa o grupo Globo não tem a coragem de assumir. No artigo citado, ao relembrar o slogan cunhado por Lula durante a campanha para 2002, “Lulinha, Paz e Amor”, sente-se uma ponta de ironia. Pois o Lula de hoje não tem mais a ver com o daquele tempo. Um Lula mais sofrido, mas nem por isso pessimista, que declara não guardar mágoas. O artigo aproveita para não concordar com o posicionamento de Lula quanto ao sofrimento e agravamento da doença e morte da esposa, dona Marisa, motivados por todos os eventos orquestrados naquela época contra ele. E também distorce o sentido da frase de Lula sobre estar mais perto do céu. Que não tem nada a ver com os infernos aventados pelo articulista, propositadamente, todos maldosos e sem prova. Lula quis dizer apenas que já está com 75 anos, na antecâmara de sua passagem, mais próximo da morte do que todos os que são mais novos.

O texto afirma também que Lula “Mesmo quando atacou injustamente jornais e jornalistas, ofereceu um afago ao defender a liberdade de imprensa…”. Na verdade, Lula, mesmo elogiando o Jornal Nacional daquele dia, tem sérias críticas à Globo que passou anos e dedicando mais tempo nesse mesmo jornal para fazer coro com a Lava Jato, condenando-o sempre. O artigo generaliza ao dizer que Lula não gostava de jornais e “muito menos do JN”. Quem ouvir o discurso de Lula saberá que ele não atacou injustamente jornais e jornalistas.  No dia da publicação do artigo, Lula elogiou o JN. Mas sabe-se que o espaço de notícias positivas para a esquerda no JN sempre foi mínimo. Mas, para criticar, sempre houve grandes pautas, o que caracteriza um olhar editorial que traz o viés da ideologia do seu dono. Ou seja, existe a questão da falta de compromisso com a verdade dos fatos, o que é sempre escamoteado de algum jeito.  Aliás, o articulista deve se lembrar – e parece-nos que isso foi ontem – que a Globo editou o debate entre Lula (PT) e Collor (PRN), no segundo turno das eleições de 1989, dando um favoritismo a Collor, o que prejudicou o candidato petista. Sabe-se que, infelizmente, debates em televisão têm mais força do que se imagina. À época, a própria rede Globo admitiu que editou o debate como se fosse uma partida de futebol, escolhendo os melhores lances. Mas sabe-se que a visão da Globo nunca foi favorável aos partidos de esquerda no Brasil, como já se afirmou. 

Mas voltemos ao artigo objeto de análise.  Observe-se que, além de referir-se à fala de Lula como peça com excessos de retórica, deixa uma frase dúbia ao final, dizendo que, agora, “Bolsonaro não está mais só”. Convenhamos, palavras não são ingênuas. Poderia muito bem ter dito: agora, Bolsonaro tem um opositor à altura para confrontá-lo com a força e o vigor que a situação caótica do país exige. Ou seja, o grupo Globo continua querendo atingi-lo editorialmente como sempre. Mesmo quando precisa se render aos fatos, arruma um jeito de torcê-los. Sempre dizendo à esquerda, você pode parecer boa, tem retórica, mas… E, precisamos reconhecer que, pela coloração ideológica, há uma certa lógica nesse posicionamento, pois, afinal, a quem os interesses “globais” estão alinhados? Aos de um país soberano, como afirmou Lula, concluo que não.

Por: José de Castro :

Jornalista, escritor e poeta.

*Substantivoplural 

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