Chile: Ultradireita e esquerda chegam como favoritas nas eleições presidenciais


Por: Victor Farinelli Opera Mundi

Ex-líder estudantil Gabriel Boric e advogado ultraconservador José Antonio Kast são os favoritos para o primeiro turno 

Nesta primeira eleição presidencial posterior à revolta social de 2019, o Chile tem como favoritos dos candidatos distantes do centro político e dos partidos tradicionais.

O país realizará o primeiro turno das suas eleições presidenciais no próximo domingo (21/11) e a disputa tem como favoritos Gabriel Boric, um ex-líder estudantil e atual deputado, que representa a coalizão conformada pela Frente Ampla de esquerda (a qual ele pertence) e o Partido Comunista, e José Antonio Kast, candidato do Partido Republicano, referência da extrema direita chilena e apologista do legado do ditador Augusto Pinochet.

As pesquisas mais recentes indicam uma pequena vantagem de Kast sobre Boric, que varia entre 5 e 4 pontos dependendo do instituto (21,7% a 17,7% para Kast, segundo Activa Research), sempre dentro da margem de erro, o que configura um empate técnico.

No entanto, há três pontos a serem destacados. O primeiro é que a última pesquisa foi publicada no dia 7 de novembro, já que a lei eleitoral chilena proíbe divulgação de estatísticas desse tipo nas duas semanas antes da votação. O segundo ponto é que as tendências dessas pesquisas nas últimas vinha indicando um crescimento lento porém constante de Kast, que vinha roubando votos do candidato Sebastián Sichel, representante da direita tradicional, enquanto Boric parecia estagnado.

Mas o terceiro ponto, que transforma tudo em uma incógnita, é que as pesquisas eleitorais têm cometido muitos erros no Chile nos últimos anos: em 2020, a última pesquisa antes do plebiscito sobre a nova constituição indicava um empate técnico entre o “Aprovo” e o “Rechaço”, e no final o “Aprovo” venceu com 78,3%. Na eleição dos representantes constituintes, as pesquisas apontavam favoritismo dos partidos tradicionais, e no final a maioria dos candidatos eleitos foram independentes e pessoas ligadas a movimentos sociais.

Outro fator que pode tornar a disputa chilena imprevisível é o voto facultativo: desde que a não obrigatoriedade foi instalada, o Chile sempre teve participação abaixo de 50% do total de eleitores aptos a votar. Além disso, as regiões do país onde reside as classes altas, que tradicionalmente votam em candidaturas de direita, costumam registrar um percentual muito maior de participação eleitoral.

A favor de Boric está o fato de que ele foi o grande vencedor das eleições prévias, realizadas no dia 18 de julho, quando ele venceu o outro pré-candidato da sua coalizão, o comunista Daniel Jadue. Naquela ocasião, Boric chegou a ter mais de um milhão de votos. Somados os votos de Boric e Jadue, a aliança entre a Frente Ampla e o Partido Comunista teve mais de 1,7 milhão de votos naquela oportunidade. Considerando o histórico das duas últimas eleições chilenas, Boric só precisaria repetir essa mesma votação no dia 21 de novembro para garantir sua vaga para o segundo turno.

Apesar da falta de credibilidade das pesquisas, em uma coisa elas parecem estar corretas: ao menos aparentemente, nenhuma candidatura parece se destacar a ponto de viabilizar uma possível vitória no primeiro turno. Caso isso se confirme, a decisão sobre quem será o próximo presidente do Chile ocorrerá no segundo turno, marcado para o dia 19 de dezembro.

Flertes com um centro órfão

Esta última semana de campanha parecem ter como tônica uma certa moderação das duas candidaturas favoritas, que tentam conquistar votos de um centro que não consegue ganhar espaço entre os eleitores.

A principal candidata “centrista” é também a única mulher na disputa: a senadora Yasna Provoste, do Partido Democrata Cristão, também é a única representante de povos originários (nasceu em uma comunidade Diaguita, de indígenas do Norte do Chile), e era considerada uma das mais figuras progressistas da sua legenda, e muito próxima da ex-presidente socialista Michelle Bachelet, de quem foi ministra da Educação.

Porém, a democrata cristã tem feito uma campanha com tom claramente anticomunista, como estratégia para tentar roubar votos de Boric. Apesar de o Partido Comunista ter feito parte da coalizão Nova Maioria junto com o partido de Provoste entre 2014 e 2018, a qual sustentou o segundo mandato de Bachelet, a candidata afirma que “os comunistas de agora não são os mesmos daquela época, e não são democráticos” – declaração feita durante um debate, em setembro passado. Esse discurso, porém, parece estar favorecendo mais a Kast que a ela mesma, que não consegue superar os 11%.

Yasna Provoste e Sebastián Sichel (candidato da centro-direita tradicional e apoiado pelo atual presidente Sebastián Piñera, aparece em quarto lugar com cerca de 8%) representam os partidos que venceram todas as eleições no Chile desde o fim da ditadura de Augusto Pinochet, em 1990. Porém, também são os setores políticos que lideram todas as pesquisas no quesito rejeição, desde que o país viveu a revolta social de 2019 – o que parece ter favorecido as candidaturas de Boric, que teria herdado os votos que antigamente pendiam para a centro-esquerda tradicional, e de Kast, que absorveria o eleitorado da centro-direita.

Ainda assim, alguns analistas políticos chilenos defendem cautela e não asseguram que os dois favoritos vão conquistar os votos mais ao centro a partir da mera moderação dos respectivos discursos, e preferem afirmar que estas quatro candidaturas (Boric, Kast, Provoste e Sichel) ainda correm com chances reais de chegar ao segundo turno.


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